A técnica ou a arte de classificar ? – Jorge Cativo



Essa arte vital: cansar e descansar, dormir e acordar e lidar com problemas, sempre procurando identificá-los, dominá-los, mas principalmente resolvê-los o quão breve puder. Polya já dizia que “a vida é uma arte de resolver problemas.”

Nesse mesmo sentido, mudando o foco de problemas para ideias, cabe a reflexão sobre uma variedade de aspectos e características inseridas no plano mental onde ao invés de problemas da vida quotidiana, a exigência se dá pela transformação do caos em algo que chamamos de ordem.
E quão remota é a necessidade de imprimir essa ordem?
Nesse limiar, um conceito primordial paira na tentativa de dar asas e libertar mentes: o conceito da classificação.
Essa reunião de ideias semelhantes, segundo uma ordem; afinidades advindas de um processo de exercício mental e intelectual que retoma historicamente os princípios filosóficos e documentais e que sobrevoa alto na mesma compreensão de outrora: a de que a classificação seja um ato ou processo que exige apenas a técnica e não tanto a dose certa de uma habilidade intrínseca e mental. 


 Isso ao contextualizar principalmente a classificação documentária, hoje enumerativa ou cheia de facetas, mas que historicamente surge de uma entre tantas criadas, sendo aprimorada no sentido de construir maior amplitude, até então apenas bibliográfica, não expandida e presa ao contexto de Dewey tê-la proposto ao âmbito escolar em 1876. 
Errônea seria a idéia de que são meramente bibliográficas quando passam a ser tradadas como documentárias? Com a palavra, as entrelinhas de escritos das renomadas Alice Príncipe Barbosa e Maria Antonieta Requião Piedade.

Mas como explicar então, o processo mental que também exige o ato de classificar?
A história revela que as classificações foram resultado de bases filosóficas ou bibliográficas, que acertadamente passaram a ser tratadas como documentárias.
O pioneirismo da base filosófica se deve a Platão e seu discípulo Aristóteles, que aqui retrata o ato de classificar como um processo mental.  Sobre isso, Piedade afirma que essas classificações filosóficas buscavam “esquematizar e hierarquizar o conhecimento, preocupados com as ordens das coisas”.
Seguido a esse dueto, aparece Francis Bacon, que escreveu seu Novum Organum, em oposição às ideias e ao Organun escrito por Aristóteles, que tem seu destaque na medida em que oferece subsídios para o surgimento de uma classificação que preconizava o método indutivo e a grande restauração como denominava interpretação correta da natureza. 

 
Sua classificação reunia o conhecimento considerando: Memória Imaginação e Razão e foi elaborada em 1623. Anos mais tarde seria essa mesma base, que invertida seria utilizada por Melvin Dewey, que na Biblioteca do colégio Amherst, no Massachusetts, aplicaria a secular forma de empregar a ordem que achava ser aplicável aos livros ali existentes e que viriam a classificar obras do mundo inteiro.
Seu sucessor, Haris, 47 anos depois, também de linha filosófica, em 1870, inverte talvez aquela que tenha servido de gêneses, ao surgimento das Classificações Bibliográficas, passando a elencar classes voltadas para Razão, Imaginação e Memória.
Guarda-se a data de 1876, como marco em que Melvin Dewey se torna o precursor da diversidade que hoje há em termos de sistemas organizados de classificações documentárias. Por meio de suas ideias, são propostas 10 grandes classes do conhecimento e a história divide o que até aqui era proposição de classificação com bases filosóficas de outra que passa a ser chamada de bibliográfica ou documental.
Augusto Compte contribui nesse processo na medida em que cria o conceito de hierarquia das ciências, estabelecendo a dependência das ciências criadas com aquela que a precede. Isso resulta no princípio da generalidade decrescente e na complexidade crescente. Na relação da matemática->Física->Química por exemplo, surgem relações sucessivas que caracterizam esse princípio.
            Rudolf Carnap, ao dividir as Ciências em formais e factuais, observou que a mente humana trata ideias em níveis abstratos e conceituais ao considerar a matemática e a física por exemplo, mas pode depender de estudos e fenômenos que dependem da observação e dos fatos, como ocorre nas ciências humanas.
 Martel e Hanson idealizaram, baseados na classificação de Cutter, no fim do século XIX, em 1897, a Library of Concress Classification, que dividia o conhecimento humano em 20 classes e tabelas geográficas, cronológicas e de forma.


 Paul Otlet e Henry La Fontaine, em 1904, ampliam o sistema elaborado por Dewey, utilizam um sistema de sinais e símbolos da matemática e da língua portuguesa para diferenciá-los.
Brown, já no século XX, em 1906, teve suas voltou suas idéias para entender as áreas do conhecimento, a partir do surgimento natural das coisas, enfatizando claramente, que suas divisões baseavam-se na cronologia de aparecimento das coisas: Força e Matéria, Vida, Inteligência e Registro dos Fatos.
Bliss, já em 1933, considerando a necessidade de desenvolver um sistema que se adequasse ao conceito educacional da sua época, reúne classes pelo seu grau de semelhança, e independente da notação empregada, com letras maiúsculas para associar as classes, minúsculas para subdivisões geográficas e números para expressar forma, sua percepção enumerou a Filosofia, a Ciência, a História, a Tecnologia e as Artes como as cinco grandes áreas de onde o conhecimento se expandia, naquela que denominou classificação bibliográfica.        


   
Por fim, Ranganathan, também em 1933, insere o princípio de facetas e focos, o que acaba sendo primordial para a percepção de que existem inúmeras características vinculadas a um determinado aspecto analisado.
Nesse vasto cenário, onde os objetivos e finalidades também, como a classificação, se reúnem por suas semelhanças, ideologias em comum, parecendo construir uma ordem exata e correta para as coisas, fica atestado que a prática da classificação não se mergulha apenas ao método tecnicista e atributivo de notações simples ou mistas a partir do aprendizado de manuseio de instrumentos.
Terá sido apagada da história a visão holística de Platão e seu discípulo Aristóteles sobre o processo mental que exige a ordem e organização? 

 
Não terá Bacon por meio de seu método experimental, quando criou suas tabelas de descoberta, sugerido que a primazia para ordenar os fatos, de tal modo que as verdadeiras causas dos fenômenos pudessem ser explicadas corretamente, só existiriam se primeiramente houvesse processo indutivo?
Ainda sobre Bacon, o tratamento relativo a classificar as chamadas ciências existentes era apenas a primeira seção de um total de seis que compunham sua obra. 
Na segunda seção, descrevia aspectos e princípios para busca da verdade. Na terceira, a relação entre uma miscelânea de assuntos empíricos. Na quarta, uma série de exemplos que permitiam a compreensão das chamadas escalas do intelecto, conforme denominou.  A quinta uma lista de peças do conhecimento científico, que permitiriam a disseminação e o grau de interesse para que os avanços fossem demonstrados. Na sexta e última, descreve a ligação entre as áreas do conhecimento reveladas na primeira e ao desenvolvimento e ampliação das mesmas, utilizando seu método indutivo e apontando para a necessidade de novas descobertas utilizando essa filosofia.


Será que essa concepção não revela ou sugere um proposito inovador?
E quanto a Harris e suas observações metódicas ou feitas ao acaso sobre o processo mental de ordenação de ideias mencionadas por Piedade?
Dewey, ao dar o passo inicial para um panorama vinculado ao aspecto documentário, enumerando as tradicionais classes do conhecimento, voltadas para os aspectos informacionais, cria também um novo paradigma vinculado apenas a compreensão de classificar como uma técnica? 

  
  Quais as diferenças entre essa arte, quando esta era objeto da filosofia, ou quando hoje não é percebida para a regulamentação de hábitos? E se indagarmos o aspecto e as suas práticas voltadas para o âmbito informacional?
Como incutir nas mentes esse preceito de que dioturnamente esse tal “processo mental de ordenar ideias, objetos, coisas, grupos de coisas que tem algo em comum”, é feito inconscientemente ou não pela maioria dos seres sem que se perceba tal ato? 

 
E pensar que Aristóteles buscou identificar e classificar o saber tendo como diretriz principal a busca por semelhanças que denominou “ausência ou presença do homem nos seres investigados”.
Por fim, quantos podem dizer que utilizam a técnica ou recorrem a um processo mental que os leva ao mesmo intuito final de associar por semelhança aquilo que se pode atribuir classe?
Atualmente, as bases filóficas e históricas, parecem ter sido apagadas e o que restou delas, foram apenas dois sistemas que alguns desprezam serem linguagens de indexação, outros erroneamente ainda as intitulam como sistemas de classificação bibliográficas e poucos vislumbram como o visionário advogado Otlet, o enorme processo mental e substancial para que um verdadeiro elo entre autor, leitor, indexador, classificador e classificacionista se crie para favorecer os sistemas de recuperação da informação. 
Vale lembrar ainda, que há uma diferença histórica fundamental entre os aspectos ligados a cronologia, 1876 e 1905, idealizadores, Dewey, Otlet e La Fontaine, características de sistema enumerativo, decimalidade, semi-facetação, apenas tabelas ou notações com a presença de sinais e auxiliares comuns e especiais: ou será que um classificacionista nato ao idealizar um sistema com foco no seu contexto de biblioteca escolar seria algo semelhante a expanção feita por um professor e jusrista e um advogado que era especialista em reunir as, aqui sim, bibliografias em ciências sociais?   
Foco sempre e a reflexão de que classificar não exige apenas a escolha de termos que representem seu conteúdo temático envolvendo instrumentos e profissionais, classifiquem estes pela magia da arte ou por esse orgulho de executar uma técnica magistral!

Jorge Cativo

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