A história de um livro

  Mede 16 centímetros de largura por 21 de comprimento. É belamente encadernado, em couro pleno, tingido de azul. Em seu interior, oculta-se um pequeno tesouro de nossas letras, que chega ao público 88 anos após ter sido escrito. Antes de conhecermos seu conteúdo, recordemos os primeiros tempos da história literária de seu autor.
Em 1930, Carlos Drummond de Andrade estreou em livro, com "Alguma Poesia". Edição modesta, de apenas 500 exemplares, custeada pelo poeta, que optou pela palavra "Pindorama" para nomear sua fictícia casa editora.
"Alguma Poesia" é título muito valorizado no cânone modernista da poesia brasileira, inclusive porque contém dois de nossos mais consagrados textos: "Poema de Sete Faces", na abertura do volume, e "No Meio do Caminho".
O que muitos ignoram é que, antes dessa estreia, Drummond, por três vezes, cogitou publicar um livro ou, pelo menos, coligiu material nesse sentido. "Teia-de-Aranha", o primeiro deles, chegou, até mesmo, a ser entregue ao editor Leite Ribeiro. A obra se extraviou, numa época em que muitos escritores (foi o caso) não se acautelavam mediante a confecção de cópias. Bem mais tarde, o poeta, autoironicamente, recordou o episódio: "A livraria me respondeu, com absoluta calma, que os originais se haviam perdido. Há um anjo protetor dos literatos novos. Esse anjo me salvou".
Em 1924, em exemplar único, o poeta compôs, em datiloscrito, "Os 25 Poemas da Triste Alegria". A terceira tentativa, sobre cujo conteúdo pouco ou nada se sabe, se denominaria "Preguiça".
Entre o primeiro, perdido, e o terceiro, etéreo, resgatemos o conjunto que sobreviveu. Vários dos "25 Poemas da Triste Alegria" já haviam sido estampados na imprensa carioca e mineira, quando, em 1924, o poeta resolveu reuni-los num caderno, acrescidos de uma dezena de inéditos. Os poemas, a rigor, pouco revelam do estilo que emergiria com força e personalidade em "Alguma Poesia": eram, em excesso, tributários da corrente que ganhou alguma notoriedade sob o rótulo de "penumbrismo". Felipe de Oliveira, Ribeiro Couto, Ronald de Carvalho e Álvaro Moreyra foram os principais nome do movimento, e o Drummond estreante jamais escondeu sua dívida para com eles, em especial para com Ronald e Álvaro. Poesia de meios-tons, dos crepúsculos suburbanos, da vida que anda devagar, alheia aos rumores da modernidade.
No meio do caminho, porém, tinha um poeta: Mário de Andrade. O amigo, mestre e interlocutor epistolar de Drummond leu e comentou, em 1926, tanto a coletânea penumbrista quanto um segundo lote de textos, claramente modernistas, que constituiriam a efetiva base do livro de 1930: para esses, entusiasmo; para aqueles, restrições. Na troca de cartas, vê-se que o jovem escritor acatou o juízo de Mário - sem, todavia, revelar que preservara, cuidadosamente encadernado, o livro dos poemas iniciais.
Em 1937, doou o volume a outro grande amigo, Rodrigo Melo Franco de Andrade, com valioso acréscimo: extensos comentários manuscritos, página a página, a propósito dos textos originais - quase sempre endossando as restrições que Mário fizera na correspondência de 1926, e acrescentando-lhes outras, sem autocomplacência. O caderno registra, portanto, os discursos duplos e paralelos de um Drummond incipiente e de um Drummond crítico, a essa altura já autor de relevo na poesia brasileira. A maior objeção que formulava ao "Poemas da Triste Alegria" era seu caráter excessivamente "literário", no sentido de artificioso, desligado da experiência e da pulsação concreta da vida.
De qualquer modo, estava preservada - nas estantes de Rodrigo M.F. de Andrade - a preciosidade bibliográfica. De lá saiu, em nebulosa aventura, para circuitos ignorados. Em algum momento, o escritor pediu o exemplar de volta, talvez para emprestá-lo a Manuel Bandeira, que, em 1958, dedicou uma crônica ao livro. Numa entrevista, Drummond confirmou a restituição da obra por parte de Bandeira e acrescentou que pensava tê-la reencaminhado a Rodrigo; este, por seu turno, asseverou que jamais a recebeu de novo das mãos de Drummond. Durante décadas não se soube mais do volume, que, entre idas e vindas, reapareceu, felizmente íntegro, no acervo de um pesquisador.
A essa altura, provavelmente, estamos indagando: é justo editar algo que o poeta, em vida, manteve na sombra? A resposta, consideradas as circunstâncias, é "sim". Todo documento que provém de um grande artista não deixa de ser manancial de informação - se não estética, ao menos histórica. Além disso, a maioria daqueles textos já havia circulado em veículo público (jornais), decerto com o aval do autor. E, se fosse inteiramente hostil à obra, por que o zelo da encadernação e a necessidade de registrar, no manuscrito de 1937, um minucioso depoimento sobre o (pré-)poeta que ele fora em 1924? Relato para quem? Depoimento (por que não?) para nós, seus leitores de 2012.
Essa é a história do livro que, em edição fac-similar, será lançado na Flip, cujo patrono, neste ano, é Carlos Drummond de Andrade. A partir de agora, a obra mais antiga do poeta passa a ser também a sua obra mais nova.

ANTONIO CARLOS SECCHIN
Escrito por Antonio Carlos Secchin  que nasceu no Rio de Janeiro, em 1952.  É professor titular de Literatura Brasileira da Faculdade de Letras da UFRJ,  tornando-se   sucessor da cátedra anteriormente ocupada por  Alceu Amoroso Lima e Afrânio Coutinho. Doutor em Letras pela mesma Universidade.

 Poeta com 5 livros publicados, destacando-se Todos os ventos (poesia reunida, 2002), que obteve os prêmios  da Fundação Biblioteca Nacional,  da Academia Brasileira de Letras  e do PEN Clube para melhor livro do gênero  publicado no país em 2002.

Ensaísta autor de 3 livros, dentre eles João Cabral; a poesia do menos, ganhador de 3 prêmios nacionais, dentre eles o Sílvio Romero, atribuído pela ABL em 1987. Em 2001, organizou a Poesia completa de Cecília Meireles, na edição comemorativa do centenário de nascimento da escritora. Em 2003, publicou Escritos sobre poesia & alguma ficção, reunindo cerca de 50 artigos e ensaios.

            Autor de mais de três centenas de  textos (poemas, contos, ensaios) publicados nos principais periódicos literários do  país  e do exterior. Sobre sua obra já escreveram favoravelmente ensaístas como Benedito Nunes, José Guilherme Merquior, Eduardo Portella, Alfredo Bosi, Antônio Houaiss, Sergio Paulo Rouanet  José Paulo Paes, André Seffrin, Ivo Barbieri, Fábio Lucas e Ivan Junqueira, entre outros.
Além disso, já escreveu diversos livros na área da Ciência da Informação que  são conteúdos frequentes em Concursos Públicos. 


            Foi Eleito em junho de 2004,  o mais  jovem membro da Academia Brasileira de Letras:  http://www.academia.org.br/
 Foco sempre !

0 comentários:

Visitas

Tecnologia do Blogger.