Odenildo Sena - Sobre mudanças e Livros



Minha mãe diria: “Sossega o facho, menino”. De fato, eu ando com o facho sossegado num cantinho nos últimos anos, mas sempre gostei de mudanças. Devo ter descoberto e alimentado essa incomum predileção com mãe, campeã de mudanças no bairro de São Raimundo, conforme já tive oportunidade de registrar por aqui. Jean e Jansen, os filhos mais velhos e fiéis escudeiros de minhas arribações, já me olhavam com aquele sorriso de certeza no canto da boca. De novo, pai! O que, para muitos, pode representar um atravancado processo, pra mim é motivo de enorme sentimento de aventura e reinvenção. O lado bom de uma mudança não está, naturalmente, na hora de transportar os bregueços. Afinal, a cada arribada a gente descobre, com inocente surpresa, o quanto eles se acumularam sem que nos déssemos conta disso. O lado encantador, pelo menos pra mim, está na rearrumação dos bregueços no novo espaço. No que tange particularmente aos livros, não tenho nenhuma pressa em lhes oferecer um novo abrigo na estante. Levo meses, até anos realizando com zelo e parcimônia essa deliciosa tarefa. São momentos de tantas redescobertas! Livros antigos e já esquecidos pela chegada dos mais novos ganham um significado afetivo e histórico, como se vivêssemos o reencontro de velhos amigos. Querem ver alguns desses últimos momentos? Foi assim que me voltou às mãos uma edição de 1966 do livro de contos “Mundo mundo vasto mundo” do amigo professor Carlos Gomes, esquecida desde a mudança anterior. Outro momento cercado de emoção foi o reencontro com “Estrela da vinda inteira”, do meu poeta predileto Manuel Bandeira, lançado em 1974 pela José Olympio Editora. Lá estava uma de minhas marcas de leitor. A ponta lateral superior direita de algumas páginas dobradas indicando meus poemas preferidos. “Irene preta/Irene boa/Irene sempre de bom humor”. Que boa surpresa! 31ª edição, de 1971, da Livraria São José, Rio de Janeiro, em papel jornal, do clássico “Eu” do poeta Augusto dos Anjos. Pura relíquia. Pura coincidência? Guiado pela marca no canto da página, abro justo em “Versos Íntimos”, de 1901. “A mão que afaga é a mesma que apedreja”. E as crônicas de Cecília Meireles? Há quanto tempo não afagava “Escolha o seu sonho”! Abro aleatoriamente, escolho o meu e lá está a doce poetisa brincando com seu tempo: “Até os bondes, que mereciam a minha confiança, deram para sair dos trilhos”. Fascinante reencontro com Clarice Lispector. “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”. Pra mim, o melhor de todos! Melhor ainda verificar – e essa é outra mania de eu leitor – que, nas margens, com minha desengonçada letra, há uma verdadeira reinvenção da obra com as tantas anotações e comentários sobre cada página lida. Há quem não goste. Eu adoro mudanças.

O autor é professor da Universidade Federal do Amazonas.

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