Bibliotecas e bibliotecários: ilustres desconhecidos



Saiu, no Correio Braziliense, artigo intitulado “profissões” na seção Pena Capital, de 11 de abril de 2011. O autor, Eduardo Reis, relata a experiência com contratação de profissionais para organização de sua biblioteca, e demonstra a sua perplexidade com a complexidade da atividade de tratar informação.

De acordo com autor, ele tentou organizar a sua coleção de livros durante 2 semanas sem sucesso. Isso porque se deparou com dúvidas sobre análise da informação de algumas obras. Exemplificou que não sabia se classificava a obra “O mago” de Fernando Morais em biografias ou história. Destaca que algumas obras são fáceis de classificar, mas outras podem ser “inclassificáveis” se o profissional não tiver formação em Biblioteconomia e documentação. O autor relata que contratou 3 profissionais para organizar o acervo, mas somente a última com a formação adequada.

Na situação atual, a bibliotecária contratada completa 6 meses de trabalho e ainda não chegou à metade da tarefa. O autor ficou surpreso ao verificar que os 15 volumes da Coleção do centenário do Eça devem ser processados unitariamente, volume por volume, não se constituindo uma unidade. Finaliza o artigo reconhecendo: “Só vendo para acreditar na existência de atividade tão complexa...”.

O artigo chama a atenção pelo relato representar o desconhecimento de grande parte das pessoas sobre o profissional que lida com a informação, em especial, o bibliotecário. Isso ocorre por vários motivos, e aqui se destacam somente os principais. No Brasil, não há uma cultura consolidada de uso das bibliotecas. A maioria das escolas de educação básica não conta com bibliotecas escolares. Em geral, existem as denominadas “salas de leitura, com material desatualizado e sem tratamento técnico, gerenciadas por professores com atestados de saúde para o trabalho em sala de aula, sem conhecimento mínimo de organização de acervo e dinamização do espaço. Os estudantes simplesmente não desenvolvem competências para buscar informação na biblioteca e nas diversos bancos de dados, não conhecem critérios adequados para avaliar a informação, desconhecem como se organizam as bibliotecas, como fazer uma pesquisa, etc.

Nesses casos, a concepção pedagógica adotada pelas escolas influencia o uso das bibliotecas. Se a escola adota aulas expositivas, usa somente livros didáticos ou paradidáticos, não trabalha por resolução de problemas, em geral, a biblioteca não parece ser necessária. Os professores transmitem informações que acreditam ser necessárias à formação dos alunos. O aluno não é protagonista da própria aprendizagem, não desenvolve o pensar reflexivo. Evidentemente, isso tem impacto na educação. As avaliações educacionais no Brasil mostram os baixos índices de desempenho.

O ciclo continua na graduação. Os estudantes não aprenderam a usar os recursos informacionais por não terem freqüentados bibliotecas escolares chegam à universidade sem o mínimo conhecimento de como lidar com a informação. Vão ao Google, encontram a informação, copiam e entregam aos professores. A facilidade com que os estudantes cometem plágio demonstra desconhecimento sobre as questões de autoria e ressalta a dificuldade deles em produzir textos.

Por outro lado, o que fazer em bibliotecas que não têm a mínima infraestrutura para funcionar? As bibliotecas no Brasil são, em geral, negligenciadas pela comunidade e pelo poder público. Muitas estão abertas em situação de penúria, contando com poucos bibliotecários ou nenhum profissional. Em geral, não possuem recursos para compra de material e manutenção de equipamentos, atividades culturais, etc.

Se a biblioteca é uma instituição distante da população, assim também o é o profissional da informação e suas atividades. Não é incomum encontrar pessoas que acreditam que o curso de Biblioteconomia forma profissionais para colocar os livros nas estantes, e que são cursos técnicos. Não sabem diferenciar o bacharel de Biblioteconomia do auxiliar de biblioteca. Poucas pessoas têm conhecimento do que seja o curso. Há uma estereotipização desses profissionais, representada por senhoras severas, que usam óculos, odeiam barulho e guardam o acervo como um cão de guarda.

No Brasil, há por volta de 42 cursos de biblioteconomia e Documentação, em sua maioria estruturados nas Universidades Federais. Mais do que organizar livros, os profissionais são formados para gerenciar e organizar a informação, dinamizar as unidades de informação, ensinar os usuários a buscar e usar informação. E surpresa!!! Os bibliotecários não trabalham somente em bibliotecas! Trabalham em qualquer instituição que requer a organização e disseminação da informação, por exemplo, clínicas médicas, escritórios de direito, livrarias,etc. Essas atividades são complexas e demandam conhecimentos e competências específicas que transcendem muito o exercício de classificar e colocar material na estante. Esses profissionais precisam tornar a informação acessível e contribuir para produção do conhecimento na sociedade, consequentemente ajudar na construção de um mundo mais democrático e com oportunidades favoráveis aos cidadãos.

GASQUE, Kelley Cristine Gonçalves Dias. Bibliotecas e bibliotecários: ilustres desconhecidos. Blog Informar & conhecer. Disponível em: < kelleycristinegasque.blogspot.com/>.

Enviado por Mirleno Lívio
Docente da Universidade Federal do Amazonas

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